Jonathan Haidt, um dos principais estudiosos dos efeitos da tecnologia na mente humana, disse no Linkedin que percebeu que o problema causado pelas redes sociais é ainda mais grave do que pensava.
Dois anos depois do lançamento do seu Geração Ansiosa, obra fundamental para que legisladores do mundo inteiro repensem o uso de redes sociais por crianças e adolescentes, Haidt percebeu que a questão central não era apenas o conteúdo e sim a fragmentação da atenção.
Segundo ele, há um equívoco comum na discussão sobre redes sociais e pré-adolescentes. Muitos acreditam que o uso pode ser liberado desde que o conteúdo seja “limpo” ou melhor moderado. Essa ideia, porém, não se sustenta por dois motivos principais.

O primeiro é a impossibilidade prática de higienizar o conteúdo em escala. As próprias plataformas já permitem materiais que violam suas diretrizes, e moderar milhões de vídeos diários avaliando níveis aceitáveis de violência, sexualização ou incentivo a transtornos alimentares é um problema insolúvel.
O segundo motivo está no próprio formato das redes. Não é apenas o conteúdo que importa, mas a forma. Vídeos muito curtos, consumidos em sequência infinita e descartados ao menor sinal de tédio, reconfiguram o cérebro para a busca constante por dopamina.
Como consequência, experiências da vida real como conversas e leitura passam a parecer excessivamente chatas.
Essa newsletter surgiu justamente para alertar sobre esse problema do qual, mesmo não sendo criança ou adolescente há muito tempo, também sou vítima. No artigo que o Jonathan escreveu em seu blog, ele deu um panorama global das medidas que estão sendo tomadas para regular as redes para crianças.
No Brasil, a partir de março entrará em vigor a “Lei Felca”, que exigirá que perfis de menores de 16 anos sejam vinculados a seus pais ou responsáveis legais. Um tiro no pé, segundo o autor.
Haidt explica que abrir exceções com “consentimento dos pais” só joga as famílias de volta na mesma armadilha de sempre. Quando todo mundo tem celular e rede social, nenhum pai consegue dizer não sem que o filho se sinta excluído. A pressão do “todo mundo tem” empurra todas as famílias a decisões ruins no coletivo, mesmo quando sabem que aquilo não é o melhor.
Para ele, a saída só funciona se for coletiva e respaldada por regras claras. Na prática, os pais não conseguem controlar quando os filhos criam contas em redes sociais, então a proteção precisa vir de leis que estabeleçam limites sem exceções. Ao adiar o acesso às redes até os 16 anos, como na lei australiana que entrou em vigor neste ano, a pressão diminui; permitir autorização mais cedo só recria o problema e mantém todos presos ao mesmo ciclo.
O Híbrido Presta! – Formação em Gestão de IA na ESPM
Na última quinta-feira aconteceu a aula inaugural do curso que comecei a ministrar na ESPM. Começamos com uma viagem pela história da computação, de Alan Turing, nos anos 1950, até 2026, já mergulhados na chamada era “agêntica”. Em seguida, fomos para a prática, destrinchando com clareza as diferenças entre automação, IA preditiva e IA generativa.
Essas foram apenas as primeiras 3 das 24 horas do curso, pensado para quem quer usar inteligência artificial de forma profunda, sem abrir mão do pensamento crítico e da autonomia humana. Fiquei especialmente feliz ao perceber que a turma inteira compartilha uma convicção essencial: os profissionais que vão orquestrar diferentes IAs não podem, em hipótese alguma, se tornar reféns da tecnologia. E a experiência ficou ainda melhor com a estrutura da ESPM, que garantiu uma aula fluida, sem atritos, tanto para quem estava presencialmente em São Paulo quanto para os mais de 20 alunos acompanhando pelo Zoom. É só o começo! Se você tiver interesse em se aprofundar em ampliar sua Inteligência Orgânica com Inteligência Artificial, fique atento pois em breve abriremos a segunda turma!
NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA
Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos.
EP.80 – Política do Cuidado, o Mercado do Ódio e a Invenção da Esperança | Márcia Tiburi
Recebo a filósofa, escritora e ativista Márcia Tiburi para uma conversa profunda sobre ética, política e resistência em tempos de colapso digital. Discutimos como o fascismo opera como tecnologia emocional, o esgotamento do neoliberalismo e a forma como as Big Techs monetizam afetos tristes. Márcia propõe a “política do cuidado” como alternativa real à lógica da violência e defende a esperança não como ingenuidade, mas como invenção ética e força criativa. Um episódio que diferencia diálogo de debate, questiona o espantalho do identitarismo e reafirma aquilo que nenhuma máquina consegue replicar: desejo, intuição e subjetividade humana.
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EP.81 – A Grande Patifaria, Hipnose de Consumo e o Fim do Mainstream | Pedro Ivo Brito
Recebo Pedro Ivo Brito (Pibe), publicitário, empreendedor e fundador da agência Club, para uma conversa provocadora sobre o colapso do marketing, a obsolescência humana e as ilusões do consumo contemporâneo. Com formações no MIT e em hipnose clínica, Pibe questiona a lógica das bolhas digitais, o fim do mainstream, a cultura do excesso nas agências e o impacto dos algoritmos na educação dos filhos. Falamos sobre transe semiótico, o uso da hipnose no marketing, a espetacularização da vida nas redes e a ideia de que, talvez, a maior inovação do nosso tempo seja reaprender a operar “dentro da caixa”. Um episódio desconfortável, crítico e necessário sobre lucidez, limite e responsabilidade.
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Até a próxima, Pedro Cortella.

