Alugue um humano para se espantar com o Moltbook

Tem horas em que o hype da IA é claramente menos pela tecnologia e mais pela forma como ela foi narrada, recortada e consumida.

Semana retrasada teve a notícia da OpenClaw com o Clawdbot: agentes capazes de operar diretamente no computador do usuário, com acesso a arquivos, aplicativos, senhas e fluxos completos de decisão. Não é mais a IA que  “responde perguntas”. Essa é daquele tipo que executa sozinha ações inteiras: pesquisa, compara, compra, contrata e opera todos os apps e sistemas. É um salto importante na delegação de tarefas digitais, o que naturalmente levantou discussões sérias sobre autonomia, segurança, confiança e responsabilidade. Até aqui, tudo ok.

Na sequência, veio o frenesi do Moltbook: uma rede social em que apenas agentes de IA podem interagir e comentar sobre seus criadores humanos. Bastou isso para surgirem prints de mensagens apocalípticas com aquela narrativa da rebelião das máquinas. Ontem, uma reportagem no Fantástico ajudou a amplificar o tema dentro do enquadramento já conhecido: “as IAs agora têm uma rede social para falar mal dos humanos”.

A questão é que o detalhe da notícia, fora da manchete, não dá Ibope: esses agentes só entram no Moltbook se um humano dono do agente quiser, solicitando em algum momento que ele entre em uma rede social assim. Nada ali portanto acontece sem autorização humana prévia — e é difícil ignorar a possibilidade de que muita gente tenha estimulado justamente opiniões polêmicas para gerar buzz, cliques e manchetes.

“- Entre nessa bagaça para causar, meu querido agente.” – Do jeitinho que os russos usam o Facebook ou como nós brasileiros comentamos em posts do instagram do Oscar.

O capítulo mais curioso dessa história, para mim, é o surgimento do rentahuman.ai – que, por incrível que pareça, ainda não gerou tanto buzz assim.

A proposta é clara: humanos se cadastram neste site para vender a execução de tarefas físicas que os agentes digitais não conseguem realizar no mundo real. Fico pensando nas tarefas que vão além do que um entregador de app qualquer faria. Talvez dar um recado presencial a alguém num local específico, puxar a tomada de outro bot… difícil imaginar qualquer coisa lícita. No fundo é só mais um filhote da gig economy, neto do avô moribundo chamado capitalismo — só que agora o contratante é uma IA.

O que tudo isso revela é menos sobre os agentes de inteligência artificial e mais sobre o funcionamento das bolhas. Diante de qualquer tema quente, vemos o mesmo efeito manada: as mesmas manchetes, os mesmos sustos, as mesmas opiniões reproduzidas em série.

Às vezes, dá vontade de imaginar um agente alugando um humano só para postar o comentário básico e previsível — porque, convenhamos, o que não falta hoje é gente fazendo exatamente isso. Sem perceber que talvez o comportamento mais automático dessa história toda ainda seja o nosso.

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No momento em que o debate sobre agentes de inteligência artificial — seja o Clawdbot operando sistemas inteiros, seja o frenesi em torno do Moltbook — vira espetáculo midiático, fica cada vez mais claro que dominar esse fenômeno exige mais do que o básico: exige visão estratégica e capacidade de gestão real. É exatamente isso que a nova turma da Formação em Gestão de Inteligência Artificial na ESPM propõe: ir além do hype, entender como implantar projetos, transformar processos e gerar valor concreto com IA em negócios de verdade, capacitando líderes, gestores e consultores para navegar com propriedade o futuro do trabalho e da tecnologia num mundo em rápida transformação. 

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EP.84 – POR QUE A IA ESTÁ ESTRAGANDO A INTERNET? | VITOR PEÇANHA

A análise de Vitor Peçanha sobre a saturação do ecossistema digital desvela a emergência do “chorume de IA”, onde a automação desenfreada ameaça soterrar a relevância humana sob uma avalanche de mediocridade sintética e redundante. O diálogo tensiona a eficiência algorítmica contra a escassez do pensamento original, posicionando a degradação do conteúdo como um sintoma de uma rede que prioriza o volume estatístico em detrimento da profundidade intelectual. Peçanha provoca uma reflexão necessária sobre o otimismo cético, defendendo que o resgate do rigor e da intencionalidade é a única barreira contra a comoditização absoluta da atenção em uma era de pixels sem alma.

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EP.85 – LONGEVIDADE, O FIM DO PRAZO DE VALIDADE E A FORÇA DOS 50+ | MÓRRIS LITVAK

Mórris Litvak desconstrói a miopia do etarismo ao situar o repertório acumulado não como um resquício do passado, mas como o ativo supremo na era da automação, onde a técnica se torna commodity e o discernimento se torna luxo. O diálogo confronta a obsessão pela juventude funcional com a necessidade urgente de uma ecologia geracional, sugerindo que o domínio das ferramentas digitais é estéril sem a resiliência e a visão estratégica que apenas a densidade temporal da experiência pode conferir. Ao ressignificar a longevidade como potência produtiva, o episódio revela que a verdadeira inovação reside na simbiose entre a agilidade algorítmica e a maturidade de quem já compreendeu que a tecnologia é apenas um meio para perguntas que as máquinas ainda não sabem formular.

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