Sou daquelas pessoas antigas que, como os maias, ainda têm o velho costume de acessar a home do UOL para se informar. Aquele site pioneiro da internet que começou como braço digital da Folha mas, depois, encontrou sustentabilidade financeira como meio de pagamento em propagandas “moderninhas” da Alessandra Negrini. Que atire a primeira pedra quem nunca teve vontade de comprar uma daquelas máquinas de passar cartão só por causa dela.
Entre as muitas opções de assuntos que me interessam, vi a manchete “Quando a tecnologia precisa avisar que você ainda existe” e cliquei. Era uma coluna da Natalia Beauty sobre a popularidade de um aplicativo chinês em que o usuário precisa logar pelo menos uma vez a cada 48 horas senão um alerta é enviado para um conhecido. Serve para pessoas que moram sozinhas avisarem os outros que elas podem estar mortas ou em perigo. Em seguida, o texto traz alguns dados sobre o isolamento social e faz uma crítica sutil de como a tecnologia leva as pessoas à solidão e como nossa sociedade mediada por telas e algoritmos desaprendeu a conviver.

Natalia Beauty é uma empresária de bastante sucesso que “começou a carreira como atendente num salão e, após aprender técnicas de micropigmentação, transformou sua paixão por sobrancelhas em um império.” – copiei essa resposta da seção “pessoas também perguntam Quem é Natalia Beauty?” do Google. Pois é, se você ainda usa Wikipedia, é cringe. E se você ainda sabe o que é cringe, também é cringe – essa é a velocidade das coisas agora.
Não tenho absolutamente nada em comum com a Natalia. Provavelmente nunca frequentamos os mesmos lugares e minha história de vida não tem nada a ver com a dela. Eu nunca arranquei nenhum pelo da sobrancelha de ninguém e tenho certeza que ela nunca tomou chuva no Estádio José Liberatti numa transmissão de Oeste x Luverdense. Então cada um no seu quadrado, um num universo distante do outro.
Como seria possível então que, ao ler o texto dela, eu vi muito do estilo que eu mesmo já usei aqui nessa newsletter!? Como é possível que duas pessoas que não tem nada em comum passem, de uma hora pra outra, a escrever de forma parecida?
A culpa é do maldito GPT.
Lá no texto dela dá pra ver a construções frasais que reforçam a ideia com uma sequência de termos complementares entre vírgulas como “Viver sozinho deixou de ser exceção e virou projeto de vida, escolha prática, solução logística”. Frases semi-poéticas como “O silêncio deixou de ser ruído e se tornou padrão.” E aquelas que sempre contrapõe na mesma frase ideias quase antagônicas para criar uma fluidez reflexiva tipo “os encontros ficaram difíceis, as mensagens substituíram as visitas, as chamadas rápidas tomaram o lugar das conversas longas, a presença virou exceção.”
Importante dizer que isso aqui não é um exposed. Francamente, pouco importa se alguém usa ou não o GPT para escrever seus textos. O artigo da Natalia não é ruim. Cumpre seu objetivo: informa e faz pensar. Também é uma grande bobagem se alguém considerar a colunista da Folha menos autora do que está ali simplesmente por que usa IA para escrever. Incomodados com isso são como os taxistas que protestavam contra a Uber – reservistas de mercado lutando contra o inevitável.
Para quem escreve, se policiar para não dar essas “gepetadas” é uma escolha estética de quem quer atingir um público específico – de nicho – que acha cool dizer que se preocupa com isso. Uma minoria de leitores um pouco mais atentos e só. O grande público – 99% das pessoas – consumirá o texto gepetado sem nenhum problema. É só acessar o Linkedin para comprovar a teoria da internet morta. Get over it!, faz parte do mundo atual consumir conteúdo assim.
Mas se você quer que seu texto tenha um estilo próprio, fuja da IA. Você pode até achar que seus prompts e seu uso contínuo calibram a máquina para digitar uma versão sua melhorada – e isso é verdade para escrever emails, orientações, contratos, memorandos, pareceres, resumos e etc. Mas para criar algo teu, o bichinho é traiçoeiro. Ele vai te deixar padronizado sem que você perceba. Aí, um belo dia você abre o UOL…
NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA
Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos.
EP.78 – Burnout, Sinais do Inconsciente e a Coragem de Mudar aos 40 | Letícia Rinaldi
Recebo Letícia Rinaldi para uma conversa potente sobre sucesso, esgotamento e escuta do corpo. Engenheira com uma trajetória meteórica em multinacionais como Souza Cruz e Mondelez, Letícia chegou ao topo em 17 anos — e pagou um preço alto por ignorar sinais que vinham se acumulando. Falamos sobre somatização do estresse, o episódio de “tela azul” em plena reunião, o impacto emocional do ambiente familiar nas crianças e a diferença entre precisar de férias e precisar mudar de vida. Um episódio sobre planejamento, coragem e individuação, que mostra como disciplina financeira, aprendizado contínuo e lucidez emocional podem transformar colapsos em travessias conscientes.
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EP.79 – O Fim da Página em Branco, Credibilidade e a Crise da Educação | Wanderley Souza
Recebo o professor Wanderley Souza para uma conversa lúcida e esperançosa sobre educação, jornalismo e Inteligência Artificial. Discutimos como a IA está encerrando o drama da página em branco, mas ampliando a responsabilidade de quem escreve, ensina e comunica. Falamos sobre credibilidade como ativo central num mundo de desinformação, o mito da Geração Z desinteressada, os dilemas da polarização em sala de aula e o papel da universidade como espaço de risco, experimento e pensamento crítico. Um episódio que conecta cinema, memória, ética e educação para lembrar que tecnologia não substitui repertório, nem algoritmo sustenta democracia sem responsabilidade humana.
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Até a próxima, Pedro Cortella.

