Passei os últimos três dias completamente obcecado. Desde que conheci o Pedro Camanho e o convidei para compartilhar com minha turma na ESPM suas experiências de vibe coding, não consegui dormir direito.
Vibe coding é a habilidade de programar sem saber programar. A capacidade de criar aplicativos, funcionalidades, automações e soluções digitais das mais variadas, simplesmente conversando com a IA. Sem código. Sem formação técnica. Só imaginação.
Na aula, ele mostrou como conectar as câmeras de segurança da própria casa num sistema que reconhece e registra toda vez que sua funcionária chega e sai, substituindo completamente o ponto. Mostrou um agente que resume grupos de WhatsApp, um robozinho que faz trading de criptomoedas, um calculador de nível alcoólico. Soluções que andam na linha tênue entre o brilhante e o inútil. Eu adoro isso.
Mas minha obsessão não estava exatamente nessa “vibe”. Desde a explosão do fenômeno openclaw e a chegada do Cowork, o recurso do Claude que acopla a LLM da Anthropic a um agente ativo no seu computador, eu vinha observando tudo isso com certo receio. Curioso, mas cauteloso.
A aula do meu xará foi o empurrão que faltava. Mergulhei de cabeça na era agêntica. Comprei um computador novo só para isso, comecei a instalar as ferramentas e rodei os primeiros testes. Só que não é tão simples assim.
Na minha cabeça, todo novo hardware é uma oportunidade para me enfiar no escritório e reorganizar, leia-se bagunçar, tudo. Desenterrei um monitor velho. Abri a gaveta com 27.583 cabos de todas as pontas e funções. Pedi uma furadeira emprestada ao vizinho, arrebentei a parede para grudar suportes, passei cabos por trás e pela frente. Juntei hubs de USB velho com USB novo, limpei o pó de HDs antigos e resolvi reaproveitá-los como expansão de armazenamento, quase criando um servidor próprio dentro de casa. Refiz o caminho da internet para não perder sinal. Passei dias enfurnado num mundo que envaideceria qualquer nerd habitué de corujão de lan house.
Como resultado, atrasei tudo. Não gravei o que precisava gravar, não escrevi o que precisava escrever e não tomei decisões que precisavam da minha cabeça.
Para coroar a epopeia, quando coloquei o robô para organizar os arquivos de um HD antigo de quatro terabytes, ele os corrompeu. Na sanha de automatizar tudo, perdi parte da minha história digital. Nem sei quais arquivos eram. E prefiro não pensar para não ficar mais triste.
Vou largar os robôs depois dessa experiência caótica? Claro que não. Vou seguir com cautela e com cada vez mais certeza de que nada é tão divino e maravilhoso quanto parece.
INSCREVA-SE na turma de abril da Formação em Gestão de Inteligência Artificial
NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA – Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos.
EP.95 – A FISIOPSICOLOGIA DE NIETZSCHE: POR QUE O CORPO É A GRANDE RAZÃO | ISADORA PETRY Em uma imersão visceral na filosofia de Friedrich Nietzsche, a psicanalista e filósofa Isadora Petry desconstrói a fantasia do livre-arbítrio e apresenta o corpo como o verdadeiro centro da inteligência. A conversa atravessa o colapso da separação mente-corpo, a denúncia do niilismo digital e a urgência de resgatar o sofrimento como motor da criação singular. Contra a anestesia dos algoritmos e das fórmulas prontas, Isadora propõe uma resistência orgânica: aceitar a angústia para, finalmente, começar a viver.
Ouça no Spotify | Assista no YouTube
EP.96 – LITERATURA COMO RESISTÊNCIA: O RITMO CONTRA O ALGORITMO | ANDREA DEL FUEGO Gravado diretamente do Festival Fronteiras SP, este episódio traz a premiada escritora Andrea del Fuego em uma defesa apaixonada da profundidade. Em um mundo de vídeos efêmeros e textos gerados por IA, Andrea aponta a literatura como o último reduto da subjetividade e do ócio produtivo. O diálogo explora como a arte, tal qual a água, encontra frestas para sobreviver aos tempos sombrios, transformando o ato de ler em um exercício político de desaceleração e reconexão com o que é essencialmente humano.
Ouça no Spotify | Assista no YouTube
Até a próxima, Pedro Cortella.