A inteligência artificial não substituirá a capacidade de surpreender quem amamos. O número de vezes na vida que somos capazes de re-re-reconhecer (com muitos hífens pois quero dizer milhares de vezes) alguém que convivemos é diretamente proporcional ao afeto e carinho que temos por essa pessoa.
Minha filha, Alice, me surpreende diariamente. Mas esse tipo de surpresa, de filha para pai, é esperado. Seja uma música nova, uma gíria, um gosto que surge nessa semana e não existia na outra. Normal, afinal, trata-se de observar alguém que está se “tornando” uma pessoa – no sentido de que surpresas são naturais na construção de uma personalidade.
Mas eu gosto mesmo é quando eu surpreendo ela. Quando mudo o caminho da escola ou invado a brincadeira dela com a amiga. O rostinho brilha de um jeito diferente quando deixo comer, durante a semana, o doce que só é permitido aos sábados e domingos.
Pra ser honesto, também nessa relação pai pra filha a surpresa é praxe. Difícil mesmo é adulto surpreender adulto.
A intimidade assassina o surpreendimento. No casamento, é fácil deixar-se levar por uma rotina em que tudo fica previsível demais. O esforço de surpreender o parceiro é algo que Isabela, minha esposa, poderia dar aula. O amor se mantém quando você descobre que seres humanos têm infinitas camadas.
Mas o ponto aqui é sobre um terceiro ser humano que, na quinta passada, manteve o dom de me surpreender. Convidei meu pai para dar uma aula de Ética avançada na Formação em Gestão de IA que ministro na ESPM.

Eu imaginava que ele ia mergulhar nas profundezas teóricas de Aristóteles, Kant, Rousseau e Descartes – esse último, aliás, ele é especialista. Que nada! Prestes a completar 72 anos, este senhor atravessou a cidade em um trânsito infernal, entrou em uma sala de 10 alunos presenciais e 20 online e, a seu modo, ensinou Ética no melhor estilo Cortella.
Quem ali estava – e todos os alunos das próximas turmas que terão acesso a esse material – teve não só uma aula de Ética em IA, mas uma grande lição de vida. A questão que ele trouxe, em latim, contém toda a simplicidade do desafio mais complexo do nosso tempo: Cui bono?
Quando acaba a surpresa, acaba o amor. Que bom que eu sigo sendo surpreendido. E você?
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🔹 EP.90 – A ERA DE OURO DA HUMANIDADE, ROBÔS HUMANOIDES E O FIM DA IGNORÂNCIA | GIL GIARDELLI
A automação absoluta das “fábricas escuras” e a longevidade expandida não sinalizam o esvaziamento do sujeito, mas a urgência de um novo contrato social que submeta a abundância técnica à ética da distribuição. Gil Giardelli provoca a superação da “paixão pela ignorância” ao posicionar a inteligência artificial não como substituta, mas como o catalisador que nos empurra de volta ao pensamento crítico e à educação de alto impacto, únicas defesas contra a obsolescência biológica e a hegemonia algorítmica das Big Techs.
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🔹 EP.91 – O FIM DO CAPITALISMO, GÊMEOS DIGITAIS E A ASCENSÃO DAS HUMANTECHS | MARCELO SMARRITO
A falência do modelo de hiperconsumo e o declínio da saúde mental ocidental impõem a urgência das HumanTechs como antídoto ao isolamento algorítmico, resgatando a presença física e o “off consciente” frente ao esgotamento digital. Marcelo Smarrito articula a inteligência artificial como uma prótese existencial — ilustrada pela sobrevida profissional via gêmeos digitais — que, desprovida de uma bússola ética humana e de um novo pacto de bem-estar social, arrisca converter o progresso técnico em uma ferramenta de atrofia cognitiva e desespero sistêmico.
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Até a próxima, Pedro Cortella