No dia marcado para minha palestra no Hacktown, uma pessoa me contou que teve aula de inglês com Renato Russo quando era criança. Fiquei morrendo de inveja boa. Imagina ter a chance de conviver de perto com alguém tão genial? Deve ter sido uma experiência incrível.
Graças a essa troca, lembrei da música “Índios”, uma das minhas preferidas da Legião. Fui ouvindo no carro rumo à palestra cujo tema era “10 formas de usar IA sem perder o pensamento crítico”.
Você já parou para ouvir e interpretar “Índios”?
Um compasso rápido de bateria e entra a voz: “Quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo o ouro que entreguei a quem conseguiu me convencer que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha.”

Não é impressionante como o Renato descreveu, quase 40 anos atrás, exatamente a relação que a gente vive hoje com inteligência artificial?
Porque é isso que a gente faz todo santo dia com o ChatGPT, com o Claude, Gemini… A gente entrega o ouro. Entrega o que sabia que tinha e o que nem sabia. E a máquina, gentil, atenciosa e sempre disponível, vai convencendo a gente de que o resultado daquela entrega é prova de amizade, ou melhor, produtividade.
E se os espelhos que ele fala que “vimos o mundo doente” fossem os “espelhos pretos”? Sim, o “black mirror” que você está usando para ler esse texto. Você olha pra ele o dia inteiro esperando ver o mundo e o que aparece de volta é feed de indignação, comparação, gente brigando, gente se exibindo, uma versão do planeta editada pra te manter olhando fascinado.
Não estou aqui tocando as trombetas do apocalipse. Dou aula de inteligência artificial, tenho o maior orgulho de ter me tornado professor por causa dessa tecnologia, não apesar dela. O problema não é usar. O problema é entregar sem perceber que está entregando, é olhar pro espelho achando que é o mundo inteiro.
Pensamento crítico, no fim, é só isso: dar um passo atrás de vez em quando e perguntar se você está sendo beneficiado ou manipulado, se o espelho que você escolheu (ou que escolheram por você) mostra o mundo doente.
A Patrizia Parenti, a aluna do Renato, que me contou essa história no café da manhã, também disse que o Renato era alguém difícil de acompanhar pois estava sempre muito louco de todos os tipos de drogas. Um coração muito bom mas alguém altamente perturbado.
A inveja que eu senti dela ter convivido com ele passou quando lembrei que nunca é bom conhecermos nossos ídolos. A intimidade 100% das vezes mostra que, de perto, todos somos só seres humanos.
Mas a reflexão que ele provocou em mim, uns quarenta anos depois de ter escrito uma letra sobre colonização eu nunca vou esquecer. Quanto do seu ouro você já entregou essa semana sem nem notar? E que espelho é esse que você tem carregado no bolso?
NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA 🎙️ Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos.
🔹 EP.151 – A ARTESANALIDADE DA MÚSICA, O SUCESSO NICHADO E O IMPACTO DA IA NA PISTA | BHASKAR
O DJ e produtor musical Bhaskar propõe um debate sincero sobre os rumos da criação artística, a evolução da cena eletrônica e a chegada da inteligência artificial à produção de som. Com mais de 20 anos de estrada, Bhaskar reflete sobre sua trajetória, suas origens no movimento psytrance, os desafios da internacionalização e a busca por um som autêntico e focado no seu próprio nicho. O convidado analisa os limites entre a conveniência das ferramentas automatizadas e a profundidade da arte humana, mostrando por que a experiência presencial e a troca de energia nos palcos ao vivo continuam sendo o trunfo mais valioso da música.
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🔹 EP.152 – A METODOLOGIA PAULO FREIRE, O FERMENTO DA EJA E A FORÇA DA ESCUTA | PROF.ª NILMA SLADKEVICIUS
A educadora e professora multipremiada Nilma Sladkevicius traz uma aula sobre o poder libertador da alfabetização na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Nilma compartilha como traduz na prática o método de Paulo Freire no chão da sala de aula, utilizando as histórias de vida e a realidade dos próprios alunos como currículo vivo para promover cidadania e autonomia. O episódio apresenta projetos que transformaram a vida de estudantes — desde o combate à violência doméstica e ao preconceito linguístico até a superação do analfabetismo na era digital —, reafirmando que o afeto e a escuta humana continuam sendo insubstituíveis.
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Até a próxima, Pedro Cortella.
