Tive a honra de palestrar na abertura de um grande congresso ESG em São Paulo nessa segunda feira. A proposta era falar sobre um tema que tem ocupado cada vez mais espaço nas minhas reflexões: “A Inteligência Artificial é sustentável?”
Cheguei ao evento com uma apresentação preparada, dados organizados e o roteiro padrão de quem acredita que sabe exatamente como tudo vai acontecer.
Mas antes da minha palestra, uma pequena falha técnica mudou o clima da manhã.

Uma excelente cantora chama Talita subiu ao palco para interpretar o hino do evento. A gravação com a parte instrumental da música que deveria acompanhá-la simplesmente não funcionou. Por alguns instantes houve aquele desconforto que sempre surge quando a tecnologia falha em público. Em vez de se desesperar, ela pediu que a plateia marcasse o ritmo com palmas e cantou a canção inteira a capela. O resultado foi bonito. Talvez até mais bonito do que teria sido com a trilha original.
Pouco depois foi a minha vez.
Eu havia enviado os slides com antecedência e imaginava que tudo estava pronto. Mas bastou subir ao palco para perceber que o telão também não iria colaborar.
Eu gosto quando isso acontece. E, por incrível que pareça, comigo acontece bastante.
Acho que nessa hora todo palestrante deveria ter um “Faustão interior” que grita constantemente “quem sabe faz ao vivo, bitchoooo”.
No esporte, a gente tem a expressão que encaixou perfeitamente pra mim naquele momento. A falta da música e do telão “deixaram a bola quicando na minha frente”. Na linguagem do vôlei, é como se eles tivessem feito o levantamento perfeito só esperando eu cortar.
Eu chutei, cortei, pontuei… modéstia a parte, foi um golaço. Deixou a reflexão muito mais interessante.
Uma das ideias centrais da palestra era justamente que sustentabilidade não é apenas uma questão de eficiência. Também é uma questão de resiliência. Um sistema sustentável não é aquele que funciona perfeitamente quando tudo dá certo. É aquele que continua funcionando quando alguma coisa dá errado.
Essa lógica vale para empresas, para instituições e também para pessoas.
Nos últimos anos nos acostumamos a discutir a inteligência artificial quase sempre a partir do que ela é capaz de fazer. Falamos sobre produtividade, automação, velocidade e redução de custos. Tudo isso é importante. Mas talvez ainda estejamos discutindo pouco o que acontece quando transferimos para a tecnologia capacidades que antes eram nossas.
Não me refiro à substituição de empregos, tema que costuma dominar esse debate. Refiro-me a algo mais cotidiano e mais difícil de perceber.
A facilidade de pedir que uma IA organize uma ideia antes mesmo de tentarmos organizá-la sozinhos. A tentação de aceitar uma resposta pronta sem o esforço de avaliá-la criticamente.
O hábito crescente de terceirizar etapas do pensamento porque existe uma ferramenta capaz de executá-las em segundos.
A sequência de acontecimentos no palco acabou funcionando como uma metáfora involuntária para esse debate.
Nem a cantora deixou de cantar porque a música falhou. Nem eu deixei de palestrar porque os slides não apareceram.
A tecnologia teria melhorado a experiência? Sem dúvida.
Mas a ausência dela não impediu que a experiência acontecesse.
Talvez esse seja um bom critério para avaliar nossa relação com qualquer tecnologia, especialmente com a inteligência artificial. Ela deveria ampliar nossas capacidades, não substituir completamente nossa autonomia. Deveria nos tornar mais capazes, não mais dependentes.
Quando perguntamos se a inteligência artificial é sustentável, geralmente pensamos em consumo energético, impacto ambiental ou infraestrutura computacional. São questões importantes e legítimas.
Mas existe outra camada da discussão.
Estamos construindo uma relação sustentável com a inteligência artificial?
Ou estamos, pouco a pouco, desaprendendo a fazer algumas coisas porque nos acostumamos a delegá-las às máquinas?
As melhores tecnologias do mundo são aquelas que ampliam nossas capacidades. Mas as capacidades precisam continuar existindo quando a tecnologia não está disponível.
Caso contrário, não estamos usando ferramentas. Estamos nos tornando reféns delas.
NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA – Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos.
EP.127 – SMART CITIES, URBANISMO HUMANO E AS BOLHAS DE SÃO PAULO | ANDRÉ ROCHA
O jornalista André Rocha, diretamente de Lisboa, traz uma perspectiva fascinante sobre os impactos sociotecnológicos no espaço urbano. O episódio debate o conceito de Smart Cities e sua contraposição à “Cidade dos 15 minutos” de Carlos Moreno — um modelo focado na proximidade e na humanização do espaço público. André analisa a linha tênue das regulamentações de dados na Europa, o avanço do monitoramento facial no centro de São Paulo, as complexidades das levas migratórias em Portugal e como o jornalismo artesanal se mantém essencial para aprofundar as discussões nacionais.
Ouça no Spotify | Assista no YouTube
EP.128 – DEMOCRATIZAÇÃO DA MEDICINA, MATURIDADE E A ILUSÃO DO PERFEITO | DR. IGOR PADOVESE
Em uma conversa profundamente íntima e reveladora, o ginecologista e obstetra Dr. Igor Padovese — irmão biológico do apresentador Pedro Cortella — abre o jogo sobre os bastidores da carreira médica e a explosão de novas faculdades de medicina no Brasil. Pioneiro na produção de conteúdo médico no YouTube, Igor traz uma visão crítica sobre as autoridades construídas artificialmente no digital, o boom do mercado de estética íntima e menopausa, e a importância de quebrar o estereótipo do “médico impecável”. Um episódio cirúrgico sobre redefinir o equilíbrio de vida, aceitar as falhas e resgatar a verdadeira inteligência orgânica.
Ouça no Spotify | Assista no YouTube
Até a próxima, Pedro Cortella.

