O peso de um passado grandioso

São-paulinos como eu entendem bem a tese que vou usar para tentar explicar o sentimento depois de mais uma eliminação precoce na Copa do Mundo.

Crescemos de salto alto.

Crescemos ouvindo narradores repetirem, em tom de certeza, frases como “a camisa mais pesada do futebol mundial”, “tem que respeitar o futebol brasileiro”, “não pode deixar eles gostarem do jogo”, entre tantas outras que moldaram nossa relação com a seleção.

Quem tem mais de 40 anos viveu, na infância ou na adolescência, uma seleção brasileira em que vencer parecia a ordem natural das coisas. Assim como todo são-paulino da minha geração, fomos mal acostumados. E isso nos assombra pelo resto da vida.

Nos acostumamos a entrar em qualquer competição com a sensação real de que a vitória era possível. Mais do que possível, era quase esperada.

Essa sensação cria uma torcida que não gosta exatamente de torcer. 

Gosta de ganhar.

Quando trabalhei como repórter esportivo, entre 2011 e 2017, tive a chance de entrar em uma bolha que não fazia parte da minha realidade: a do torcedor de time pequeno. O torcedor da Série B, da Série C, às vezes nem isso. Aquele sujeito que está sempre ali, apoiando, xingando, se revoltando, voltando no jogo seguinte. Aquele que tem lugar cativo, não cadeira cativa, no estádio. Aquele que talvez nunca tenha visto o time ser campeão de nada, mas carrega, na rotina, um hábito geracional mais forte do que ele mesmo. Muitas vezes, esse torcedor nem sabe explicar por que faz o que faz.

Todo time grande também tem uma parcela de torcedores assim. Mas eles são minoria absoluta. Para abrir mão de tanto da própria vida em função de um clube, é preciso estar tomado por algo que vai muito além da lógica. 

Antes de ver isso de perto, eu nunca entenderia a existência desse tipo de torcedor. Como são-paulino, acostumado a títulos, não fazia muito sentido para mim seguir torcendo por um time que nunca ganha.

Racionalmente, não faz mesmo. Mas essa é a magia do futebol.

O problema é que, quando o assunto é seleção brasileira, esse torcedor “raiz” não existe.

Os anos foram passando. Veio o 7 a 1. Vieram outras eliminações. Vieram frustrações em sequência. De repente, faz tempo demais que não ganhamos nem uma mísera Copa América.

Para o torcedor-nutella da seleção — e aqui estamos todos nós — não há muita magia. Há raiva. Uma raiva que nasce porque crescemos esperando um nível de comprometimento, talento e resultado que ninguém nos avisou que pertencia a uma época específica. Não era uma condição permanente. Não seria para sempre.

O curioso é que, quando começa a Copa — e, no meu caso, até quando começa o Campeonato Brasileiro para o São Paulo — a gente sempre se deixa iludir. Sempre acha que agora vai. Que vamos chegar longe. Que um grande resultado está logo ali, mesmo quando não há nenhuma evidência muito sólida de que isso possa acontecer.

Mas para mim a parte mais triste da semana não foi a eliminação.

Nos últimos dias, estive no Rio de Janeiro dando um curso intensivo de inteligência artificial. No trajeto de metrô até a ESPM-RJ, em pleno horário de rush, me chamou atenção a enorme maioria das pessoas presas à tela do celular.

Até aí, nenhuma novidade.

O que me assustou foi outra coisa. Entre essas telas, mais da metade estavam abertas em plataformas de apostas. Gente acompanhando odds em tempo real, apostando nos jogos em andamento, pulando de palpite em palpite, ou simplesmente presa num “tigrinho” da vida.

Essa derrota é maior.

Porque uma coisa é sofrer por uma memória coletiva que ensinou a gente a esperar demais. Outra coisa é ver nosso futebol e nosso povo sendo engolido por uma lógica de cassino permanente.

Triste demais.

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Até a próxima, Pedro Cortella.

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