Toda semana, quando entro em sala para dar aula de Gestão de IA, vejo uma cena que diz mais sobre o futuro do trabalho do que boa parte das manchetes apocalípticas que circulam por aí.
Quando passo exercícios individuais, quase todo mundo gosta. O aluno abre o GPT, o Claude, o Gemini, testa um prompt, refina a resposta, ajusta uma ideia, ganha velocidade e se sente mais capaz. A inteligência artificial, nesse contexto, entrega uma sensação legítima de potência. Mas quando o exercício é em grupo, a coisa muda bem. A IA continua ali, bastante eficiente. O problema é que agora existe uma variável que ela ainda não resolve: o outro.
Ta aí uma das grandes ilusões da nossa era. Falamos o tempo todo sobre produtividade, automação, agentes, copilotos, eficiência operacional, ganho de escala e substituição de tarefas, mas falamos muito pouco sobre a competência humana necessária para trabalhar com pessoas em ambientes mediados por máquinas.
Em sala de aula, isso aparece de um jeito que me incomoda bastante: como os grupos são formados aleatoriamente, surgem diferenças de repertório, de idade, de profissão, de vocabulário e, principalmente, de fluência digital. Mesmo com as diferenças, parece que todos querem delegar tudo à máquina. São raros os que querem discutir melhor o problema antes de pedir qualquer coisa ao chat. Em poucos minutos, o que deveria ser um exercício sobre inteligência artificial vira um laboratório sobre paciência, escuta, liderança, insegurança, vaidade e empatia.
Isso não é apenas impressão de professor. A Harvard Business Review publicou recentemente um artigo com um título bastante direto: “It’s Hard to Use AI as a Team”. A tese é simples: usar IA individualmente já é uma curva de aprendizado; usar IA coletivamente exige coordenação, clareza de papéis, alinhamento de expectativas e uma cultura mínima de colaboração. Não basta colocar uma ferramenta poderosa no meio do grupo e esperar que todo mundo magicamente se torne mais inteligente. A IA pode melhorar o desempenho de uma equipe, mas também expõe suas fragilidades mais rapidamente.
Conviver com respostas diferentes, ritmos diferentes e níveis diferentes de maturidade digital tem se tornado cada vez mais difícil. Quem domina melhor a ferramenta tende a perder a paciência com quem está começando. Quem tem menos fluência digital se sente constrangido, infantilizado ou deslocado. A promessa da IA é democratizar o acesso à capacidade técnica. Mas, no cotidiano, ela aumenta a distância entre quem se sente fluente e quem se sente atrasado.
Na semana passada, propus um exercício aparentemente complexo: inventei alguns nomes fictícios e pedi que os grupos criassem produtos ou serviços a partir deles com uma apresentação e um plano de negócios. Era uma atividade prática de imaginação potencializada pela IA na visualização. Eles entregaram o que pedi. Mas quando comparo uma turma com a outra, as ideias são praticamente iguais: uma linha de cosméticos naturais da Amazônia, uma camiseta tecnológica… Nada estava propriamente errado, mas nada realmente original.
Eu já escrevi aqui sobre isso e Academia já apontava isso antes: há 2 anos um estudo publicado na Science Advances por Anil Doshi e Oliver Hauser mostrou que a IA generativa pode aumentar a criatividade percebida de indivíduos, especialmente daqueles que tinham mais dificuldade inicial em tarefas criativas. Mas há um custo coletivo: os resultados ficaram mais semelhantes entre si. Em outras palavras, a IA pode fazer uma pessoa parecer mais criativa enquanto torna o conjunto das pessoas menos diverso. Todo mundo melhora um pouco. E todo mundo fica parecido.
O que mais me impressiona nesse processo é o auto engano de quem se julga avançado apenas porque usa IA todos os dias e já automatizou alguns pedaços da própria rotina. Acho que estamos diante de uma das maiores manifestações coletivas do efeito Dunning-Kruger da história recente: quanto mais a pessoa aprende a operar a ferramenta, mais acredita que compreendeu a profundidade da transformação. Só que fluência operacional não é maturidade intelectual. Saber gerar prompts, criar automações ou produzir mais rápido, na imensa maioria das vezes, não significa entregar um trabalho melhor.
Embalados pela sensação de eficiência, produzimos mais, respondemos mais rápido, organizamos melhor as tarefas, criamos apresentações mais bonitas, escrevemos textos mais fluentes e, justamente por isso, passamos a acreditar que estamos evoluindo. Mas, aos poucos, estamos terceirizando nossa identidade.
Quanto mais o trabalho é delegado à máquina sem reflexão, menos repertório próprio, menos conflito interno. A IA amplia a nossa capacidade, mas dilui nossa individualidade se não a usamos como provocadora do pensamento.
Nesse sentido, confesso que às vezes me preocupo mais com o aluno que se considera avançado do que com o iniciante receoso. O iniciante ainda desconfia, pergunta, testa devagar, preserva algum espanto. O “avançado”, muitas vezes, já está convertido e confia cegamente no que está fazendo com IA.
O risco que corremos é nos tornarmos eficientes demais para perceber que estamos 100% padronizados.
NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos.
EP.121 – A REVOLUÇÃO ÉTICA E O IMPERATIVO DO CUIDADO | HAMILTON DOS SANTOS Hamilton dos Santos, diretor-executivo da Aberje, traz uma reflexão contundente sobre a necessidade urgente de uma nova ética para o mundo do trabalho e das organizações. O episódio discute como a tecnologia, a globalização e as crises sociais estão redesenhando o papel das empresas e a nossa compreensão de sucesso. Hamilton defende que o “imperativo do cuidado” — o compromisso com o bem-estar das pessoas, da sociedade e do planeta — deve ser o princípio norteador de qualquer liderança responsável. Uma conversa inspiradora sobre como podemos construir um futuro mais justo, sustentável e humano.
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EP.122 – O SILÊNCIO NO CAOS E A ARTE DE ESTAR PRESENTE | MONJA COEN Em uma conversa serena e profunda, Monja Coen nos convida a encontrar o “templo sagrado” dentro de nós mesmos, mesmo em meio à correria do mundo moderno. O episódio explora como a prática da meditação e da atenção plena pode nos ajudar a lidar com a ansiedade, o estresse e a enxurrada de informações digitais. Monja Coen compartilha ensinamentos valiosos sobre a impermanência, a compaixão e a importância de cultivarmos o silêncio interior para ouvirmos a nossa própria sabedoria. Uma conversa essencial para quem busca paz, equilíbrio e sentido em tempos de incerteza.
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Até a próxima, Pedro Cortella.

