Tem uma palavra que eu não usei na entrevista que dei para o Bett Blog há alguns dias. Não porque ela esteja errada. Pelo contrário: considero a palavra certa. Mas “certa” nem sempre é conveniente numa conversa com o mercado de Educação.
A palavra é: dificultador.
Disse, na entrevista, que o professor deve parar de ser um facilitador de acesso ao conhecimento para se tornar um “criador de atritos intelectuais”. É o tipo de formulação que soa bem num painel de congresso, que ninguém vai contra porque parece inteligente.
Mas é um eufemismo.
O que eu realmente quis dizer é que o professor precisa aprender a ser, de forma consciente e intencional, um dificultador.

A educação que eu tive foi facilitadora. Com razão, aliás. O professor-facilitador foi uma reação necessária ao professor-repositório, aquele modelo bancário que Paulo Freire criticou com tanta precisão: o professor que deposita conhecimento, o aluno que saca na prova. A facilitação é necessária. Aproximar o conteúdo da realidade do aluno para que a compreensão e apreço pelo conhecimento seja efetivo. Jamais devemos perder isso de vista.
Mas aí veio o ChatGPT.
E de repente, o maior facilitador de qualquer matéria cabe no bolso de qualquer estudante de 14 anos. Está disponível 24 horas, fala mil idiomas, não tem mau humor e é capaz de criar metáforas visuais altamente personalizadas para explicar tudo de acordo com o gosto do freguês, ou melhor, do aluno.
Se o professor continuar competindo neste terreno, o da facilitação de conteúdo, ele perde.
Tem um nome que clareia esse argumento melhor do que qualquer teoria: Clóvis de Barros Filho. Já tive o prazer de conviver com ele em muitas ocasiões. Clóvis se define como um explicador. Ele explica. É o que ele faz, e faz muito bem. A IA também explica. Explica tudo, o tempo todo.
Mas eu ainda prefiro ouvir o Clóvis explicar. E não é saudosismo, nem afeto pelo filósofo, embora eu tenha afeto. É porque o Clóvis é um explicador dificultador. Ele não simplifica para acabar com a questão. Ele explica de um jeito que complica o que você achava simples. Você entra com uma dúvida e sai com três. E as três são melhores do que a que você trouxe.
Isso é ser dificultador. Algo que é e sempre será 100% humano.
NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA 🎙️ Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos.
🔹 EP.139 – O ALGORITMO ORGÂNICO, A INFOCRACIA E O RESGATE DO SILÊNCIO | PETRIA CHAVES
A jornalista e apresentadora da Rádio CBN, Petria Chaves, compartilha um diálogo profundo e inspirador sobre como cultivar a saúde mental, a espiritualidade e a intuição em meio ao turbilhão da era digital. Autora de obras marcantes sobre o silêncio e a autorialidade, Petria relata como a rotina frenética das redações fez seu corpo “gritar”, levando-a a investigar a filosofia védica, a neurociência, o yoga e a ancestralidade para construir um método de presença. O episódio discute a “infocracia” analagada por Byung-Chul Han, o papel da curadoria pessoal e do tempo no amadurecimento intelectual, e por que a tecnologia jamais conseguirá substituir a sabedoria e a conexão do olho no olho.
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🔹 EP.140 – PRIMEIRA INFÂNCIA, O MITO DO HOMESCHOOLING E O RAGEBAIT DIGITAL | FERNANDA KING
A pedagoga, palestrante e fundadora de escola infantil Fernanda King traz um olhar realista e direto sobre as urgências da educação brasileira e o impacto devastador das telas nas novas gerações. Fernanda relata sua transição do setor de vendas para a pedagogia, o trauma de perder mais de 200 alunos durante a pandemia e como a desvalorização do ato de educar na primeira infância compromete a base de toda a sociedade. O episódio faz críticas severas às promessas fáceis de cursos online de parentalidade, desconstrói os perigos ideológicos do homeschooling e da falta de convivência com o diferente, e mostra como usar a inteligência artificial para apoiar o professor sem retirar o discernimento humano e a intencionalidade pedagógica do brincar.

