O apocalipse tem valuation

O Mythos, o modelo de linguagem super poderoso da Anthropic, teria conseguido invadir quase todos os sistemas confidenciais dos Estados Unidos em poucas horas. A informação é atribuída a um chefe da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) que disse isso ao senador Mark Warner, uma das lideranças na batalha pela regulamentação da Inteligência Artificial.

Nós, mortais, ficamos sabendo disso no domingo, bem depois que o próprio governo dos EUA ordenou que a empresa suspendesse o acesso de estrangeiros ao Mythos e ao Fable, inclusive estrangeiros que estão dentro dos Estados Unidos.

Aí Anthropic respondeu desligando os dois modelos para todo mundo.

A pergunta não óbvia que me interessa é: quem lucra quando o mundo inteiro passa a acreditar que “foi criado algo tão poderoso que nem seus criadores conseguem controlar”?

Tenho divergido em conversas sobre isso nos últimos dias. Para muitos, as restrições impostas aos modelos da Anthropic são um risco para uma futura abertura de capital da empresa: mais limites, mais incerteza. Eu discordo. Em um mercado viciado em novidades tecnológicas, a narrativa de uma IA quase indomável não reduz valor. Ela aumenta.

Afinal, uma empresa que diz ter criado uma tecnologia capaz de ultrapassar controles, desafiar infraestruturas e produzir efeitos imprevisíveis não está vendendo apenas um produto. Está vendendo excepcionalidade. Está sugerindo que possui algo tão avançado que o resto do mundo ainda nem tem capacidade de imaginar o que é, imagina alcançar! E, na lógica financeira das big techs, essa percepção vale tanto quanto a tecnologia em si.

Isso não significa que os modelos da Anthropic não sejam poderosos. Eles provavelmente são. Tampouco significa que riscos de segurança, uso indevido e concentração de poder não sejam reais. O problema é quando o medo vira motivo de especulação e o que essa história ajuda a valorizar.

Também tenho ouvido um pessoal dizer que os LLMs chineses, mais baratos, ainda levarão muito tempo para chegar ao nível do que a Anthropic tem em mãos. Mas essa ideia costuma vir de quem ainda acha que existe uma distância enorme entre um pequeno grupo de empresas americanas e o resto do mundo.

A história recente da IA não é bem assim. Concorrentes chineses e avanços inesperados têm desmentido previsões muito confiantes. A tese de que apenas alguns poucos gigantes detêm um poder sobrenatural serve muito bem a quem precisa justificar valuations sobrenaturais.

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A jornalista e apresentadora Cris Guterres abre o coração em um diálogo profundamente honesto sobre maturidade e autocrítica. Mulher negra vinda da periferia de São Paulo, ela relata como a pressão histórica de ter que ser “duas ou três vezes melhor” para ser considerada aceitável moldou uma postura severa consigo mesma, e como a virada dos setênios aos 42 anos trouxe a libertação do acolhimento. De Piracanga ao gogó do palco, Cris propõe uma reflexão cirúrgica sobre o enfraquecimento do letramento racial nas empresas e a mercantilização de pautas sociais, mostrando por que a consciência histórica e a recusa da superficialidade são os caminhos de resistência na era do conteúdo padronizado por algoritmos. 

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Até a próxima, Pedro Cortella.

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