Eu vi o vídeo do Neymar no futuro e me deu vontade de jogar tudo pro alto e morar no mato.
São quase dez da noite de segunda-feira e essas são as primeiras linhas da minha newsletter semanal. Inventei esse compromisso há 56 semanas, sei lá por quê. Na época pensei: caramba, usando IA eu consigo manter essa frequência facinho. Ela praticamente se escreve sozinha. O GPT já tem o meu tom e o Claude já sabe disfarçar aquela chatice pasteurizada sem parecer que é o puro suco de IA. Cheguei a criar um agente escritor de newsletter do Pedro Cortella, mas nunca usei.
Agora estou aqui, olhando para este terceiro parágrafo sem a menor noção de onde levar esse texto arrastado. Não tenho ideias, não tenho a menor vontade de comentar o lançamento de nenhum modelo super revolucionário de IA nem de criticar qualquer peripécia tecnológica que um nerd bilionário aprontou essa semana.

Seria muito fácil fazer isso. Basta encontrar uma notícia gringa no Google, mandar o GPT interpretar como eu interpretaria, ler rapidamente o que ele cuspiu, copiar e mandar no Claude, mudar uma coisinha aqui, outra ali, botar qualquer bobagem pessoal e pronto.
“Ninguém vai perceber”, diria o diabinho imaginário no meu ombro direito. “E se perceberem, não faz mal, porque você é professor de IA”, diria o outro, que mora no algoritmo que completa as frases que escrevo pela metade.
Fiscalizar quem usa ou não usa IA em texto, na minha opinião, é uma bobagem sem tamanho. Como humanidade, não deveríamos focar nisso. Deveríamos focar no crime maior que essa tecnologia nas nossas mãos comete diariamente: o assassinato do atrito para quem se propõe a produzir qualquer coisa.
A sofrência de quem, como eu, escreve por compromisso morreu. Ao abrir uma página em branco no computador, a sugestão já aparece: escreva com o Gemini. Quem usa Word já tem o Copilot na orelha antes de encostar no teclado.
Talvez passar horas olhando para o cursor piscando, digitando e apagando inícios de frases seja desesperador para a maioria das pessoas. Para mim também é. Mas eu teimo em acreditar que as obras geniais de verdade só existem por causa desse sofrimento.
Agora são onze e dezessete. Estou cansado e irritado, porque quero amarrar o início do texto com o final em poucas palavras. O fato é que há alguns meses vejo como as pessoas estão cada vez com mais raiva desse negócio de IA. Os jovens vaiando CEOs nas formaturas norte-americanas são diretamente conectados às demissões em massa e ao excesso de lixo de IA que inunda as redes sociais.
Mas, se um dia me perguntarem, eu já sei dizer o motivo exato que me fez querer nunca mais mexer com inteligência artificial.
NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA 🎙️ Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos.
🔹 EP.135 – COMPAIXÃO ATIVA, FINANÇAS ÉTICAS E O VALOR DA AGROFLORESTA | JOÃO PACÍFICO
O fundador do Grupo Gaia, João Pacífico, propõe um diálogo aberto focado no “progressismo com os pés no chão”. João diferencia o ativismo inócuo de sofá (slacktivismo) da compaixão ativa — que transforma o incômodo da empatia em ações concretas e transformadoras para interromper o sofrimento alheio. O episódio demonstra na prática como usar as ferramentas do mercado financeiro para apoiar cooperativas do MST, habitação popular e transição ecológica de forma lucrativa e sustentável. Um debate sem amarras sobre o combate ao assédio judicial corporativo, os limites do “vício no dinheiro” das Big Techs e o conceito de que, assim como na agrofloresta, uma sociedade só funciona quando o ecossistema inteiro está saudável.
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🔹 EP.136 – RISCOS PSICOSSOCIAIS, A CULTURA DO MEDO E A NR1 NA SAÚDE MENTAL | LAÍLSON LIMA
O engenheiro de segurança do trabalho e professor Laílson Lima traz um panorama urgente e contundente sobre a saúde mental e os riscos ocupacionais no Brasil. O episódio destrincha as atualizações históricas da NR1 — a norma-mãe das regulamentações trabalhistas — que passou a incluir o burnout, o estresse e a ansiedade como riscos psicossociais equivalentes a riscos químicos ou biológicos. Casado com a neurocientista Irene Reis, Laílson debate as heranças de uma cultura corporativa escravocrata baseada na falta de segurança psicológica, critica o discurso nocivo do “empreendedor herói” que glamouriza o esgotamento e alerta sobre o cerco regulatório que vai do E-Social ao bolso das empresas.
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Até a próxima, Pedro Cortella.

