Um aplicativo para chamar de prova

“Vibe coding” é um termo criado em 2025 por Andrej Karpathy, membro fundador da OpenAI e um dos pesquisadores mais influentes do mundo da inteligência artificial. Recentemente, ele se juntou à Anthropic, empresa responsável pelo Claude, que acaba de ultrapassar a OpenAI em valor de mercado superinflacionado pela insana bolha tecnológica que vivemos.  

Na prática, vibe coding é uma forma de desenvolver aplicativos e outras soluções digitais conversando com uma inteligência artificial. Em vez de escrever cada linha de código, você descreve o que deseja em linguagem natural, testa o resultado e continua orientando a máquina por meio de prompts. Eu já perdi algumas semanas de vida nesse negócio e escrevi sobre isso no início de março.

Desde a minha primeira turma dando aula na ESPM, o vibe coding faz parte do conteúdo. Naquele momento, o assunto ainda aparecia pouco nos ambientes acadêmicos. Convidei alguns amigos “vibecoders” para apresentar aos alunos projetos que haviam criado, como Pedro Camanho, que desenvolveu um agente capaz de resumir conversas em grupos de WhatsApp, e Rafael Ruppel, que construiu um sistema inteligente e personalizado de gestão condominial para o prédio onde mora.

A partir da segunda turma, os alunos também conheceram o Clawdinho, um assistente no WhatsApp que criei para responder dúvidas sobre o curso, enviar lembretes relacionados às aulas e manter a turma atualizada sobre as principais notícias do universo da IA.

Foi nesse ambiente em permanente metamorfose que recebi um feedback curioso. Uma aluna disse que havia adorado o curso, mas sentiu falta de uma prova final para medir o próprio aprendizado.

Como professor, costumo tratar a questão das provas e das notas com bastante ironia. Apesar de amar dar aula, nunca me imaginei aplicando e corrigindo uma prova — muito menos para adultos e sobre um assunto tão mutante quanto a inteligência artificial.

Sou do time que acredita que o aprendizado pode ser observado de outras maneiras: na evolução da fluência digital, na qualidade dos comentários, no processo de realização dos exercícios, nas discussões em grupo e nas dinâmicas desenvolvidas ao longo das aulas.

Mas entendi o ponto daquela aluna. Algumas pessoas precisam de um marco formal, de uma avaliação que confirme e registre a transformação que perceberam em si mesmas.

Por isso, na última quarta-feira, durante a aula final da terceira turma, resolvi me antecipar a esse feedback e entreguei uma prova. Mas fiz isso do meu jeito.

Usando vibe coding, criei um “app-prova”: um aplicativo que combinava questões objetivas, perguntas dissertativas e desafios que exigiam tanto inteligência orgânica quanto o uso da conta pessoal de IA de cada aluno.

Ao final, em vez de apenas apresentar uma nota, o aplicativo queima alguns tokens para gerar uma foto personalizada de “formatura” e um texto individual descrevendo a transformação de cada participante ao longo do curso.

É possível que a ideia não seja inédita, mas eu nunca havia visto uma avaliação ser conduzida exatamente dessa forma. E acredito que experiências assim devem se popularizar rapidamente. Para os alunos — e também para mim — foi muito mais interessante do que preencher uma folha de papel ou responder a mais um formulário convencional.

Isso não significa que transformar uma prova em aplicativo torne automaticamente a avaliação mais inteligente. Uma interface bonita também pode apenas maquiar velhas formas de medir o aprendizado. O que realmente importa é usar a tecnologia para criar experiências personalizadas, capazes de combinar conhecimento, reflexão, prática e contexto.

É justamente esse tipo de construção que estará no Laboratório de IA Aplicada, que ministrarei no Rio de Janeiro no fim de junho. Será um sprint de cinco dias dedicado ao uso prático de vibe coding, agentes e outras ferramentas, para ajudar profissionais a sair do uso superficial da IA e começar a transformar problemas reais em protótipos, processos e soluções.

No final, foi um verdadeiro ganha-ganha. Os alunos receberam a confirmação do aprendizado nos moldes clássicos que alguns poderiam desejar. E eu ganhei uma prova — social — que certamente ajudará na divulgação das próximas turmas. De quebra, ainda vou inaugurar uma bela seção de formandos no site do curso.

Talvez o futuro da avaliação seja esse.

NO AR: INTELIGÊNCIA ORGÂNICA – Reflexões sobre tecnologia, pensamento crítico e o que nos torna humanos. 

EP.125 – REPUTAÇÃO, O CURTO CAMINHO LONGO E O CASSINO DOS ALGORITMOS | GUSTAVO CERBASI 

Com 27 anos de lida na educação financeira, o autor e professor Gustavo Cerbasi confronta o pessimismo com uma dose firme de estratégia e consistência. Afastando-se dos clichês de enriquecimento rápido e das fórmulas de lançamento agressivas, Cerbasi defende o “curto caminho longo”: o planejamento monótono e previsível que protege a saúde mental e realiza sonhos com segurança. O episódio disseca o impacto destrutivo das apostas digitais (bets) na economia das famílias, o fenômeno do tecnofeudalismo e como usar a inteligência artificial não como criadora de resumos rasos, mas como sua pior inimiga para criticar e refinar ideias fora da média. 

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EP.125 – EDUCAÇÃO SEXUAL, HIPERESTIMULAÇÃO E OS MITOS DE GÊNERO | DRA. JULIANA VIEIRA HONORATO 

A ginecologista e obstetra Dra. Juliana Vieira Honorato traz uma visão sem clichês sobre a sexualidade e o desenvolvimento infantojuvenil em tempos de hiperestimulação. O episódio debate o impacto do acesso precoce à pornografia — uma indústria historicamente desenhada pelo olhar masculino — no desenvolvimento cerebral e na normalização de comportamentos abusivos. Juliana reflete sobre a queda na idade de início da puberdade, o peso da sobrecarga mental na libido feminina e por que o diálogo aberto e o “letramento” são os únicos caminhos viáveis onde os filtros das Big Techs e os controles parentais falham. 

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Até a próxima, Pedro Cortella.

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